ANO NOVO, VIDA NOVA – As minhas escolhas de Janeiro

Já por diversas vezes tentei, sem grandes resultados, tornar este blogue menos morto. Dar-lhe vida semanalmente, ou mensalmente, pelo menos. Mas, aqui entra aquela frase clichê “o tempo voa” ou um “não dá para tudo” o que é verdade. Com muita pena, é verdade.

 

Adorava poder escrever, ler, devorar séries e fazer disso a minha vida. Sobretudo no que diz respeito à parte da escrita, mas não consigo. Acordo às 07.00H, entro num trabalho às 08.30H e, ao chegar a casa por volta das 19.00H, entro noutro. Naquele que mais trabalho (e mais prazer) me dá. Os “terrible two” estão aí com todas as birras que lhe são inerentes.

 

Assim sendo, e não querendo exigir demasiado de mim, gosto de dizer que já muito faço eu. Já muito consigo, apesar de todas as limitações temporais. Claro que cozinho e almoço de livro, vou para a sanita de ebook e adormeço, sempre, de óculos postos e com companhia literária na almofada. A minha outra companhia nem sempre acha muita graça a isto.

 

As escolhas de Janeiro foram influenciadas, maioritariamente, pela Helena Magalhães e o seu HM Book Gang (que, este mês, tem uma sugestão muito especial, ora espreitem).

 

A Baía de Miramar

 

SINOPSE:

Ele não veio até tão longe apenas para partir mais um coração.

Na esteira da melhor literatura romântica, Davis Bunn apresenta-nos este romance excecional e cativante entre dois estranhos numa pequena cidade costeira. Connor Larkin apanha um expresso no centro de Los Angeles, mas não sabe ao certo para onde vai ou o que procura. Um dia sonhou ser cantor e vê-se agora catapultado para o cinema e para os braços de uma jovem herdeira famosa. Connor sente que tem de repensar tudo e de se reencontrar, mesmo que para tal tenha de colocar em segundo plano o casamento e uma carreira brilhante. Alguma coisa indefinível ficou esquecida, a caminho do sucesso uma parte de si ficou para trás. É assim que, com a data do casamento a aproximar-se, Connor desembarca na pacata cidade costeira da baía de Miramar onde uma mulher notável o vai obrigar a repensar todas as suas escolhas. Ela precisava de lhe conhecer os segredos e de saber se o que ele lhe dizia era verdade.

Sylvie Cassick é o oposto das estrelas pretensiosas de Hollywood. Filha de um pintor com pouco sucesso, teve sempre de trabalhar para alcançar aquilo que queria. Quando Connor se candidata para trabalhar no restaurante de Sylvie, ela não sabe exatamente o que pensar desse estranho, incrivelmente atraente, mas aceita o desafio. Lentamente, sente o coração ceder, mas compreende também que há em Connor mais do que aquilo que ele deixa transparecer. E este percebe que reencontrou o seu destino. Porém o mundo exterior ameaça o vínculo frágil que foram estabelecendo e Connor tem de arriscar perder tudo para poder alcançar a vida que anseia e ser o homem que Sylvie merece.

A Baía de Miramar é uma viagem inesquecível, por caminhos pouco percorridos, em busca de uma verdade sempre envolvida em dúvidas e desejo.

 

 

OPINIÃO:

A Baía de Miramar é um romance levezinho, sem grandes surpresas e que li sem muitas expectativas. Gosto de leituras leves para me permitir respirar. E de alternar estilos. Um romance deste género sente-se como uma pausa e, depois de um final de ano de 2019 algo pesado, com a leitura do Apicultor de Alepo (que a seu tempo colocarei aqui), precisei disto.

As personagens são interessantes, mas algo vazias. A acção desenrola-se demasiado rápido o que torna difícil o criar de empatias. Não adorei o Connor que me pareceu um tanto oco e sem norte e, ainda menos, adorei a Sylvie. Queremos dos livros o que não temos, tantas vezes, na vida real. Alguém que marque, convença, se revele merecedor de afectos. Não foi o caso. A história de amor é um pouco despojada de sentimentos e o enredo por trás dela inverosímil.

De qualquer modo, a leitura avança rapidamente e sem esforço e a escrita é inegavelmente bonita pela sua simplicidade. Apeteceu-me conhecer Miramar e passar lá um fim-de-semana de férias. Foi, de longe, o que mais me marcou no livro. O espaço, os cheiros, a vida daquele local eram quase palpáveis.

Foi a primeira obra que li deste autor.

 

3*

 

 

O Jardim das Borboletas

 

SINOPSE:

Perto de uma mansão isolada, encontra-se um jardim com flores exuberantes, árvores frondosas e… uma coleção de preciosas borboletas: jovens mulheres sequestradas e tatuadas para se parecerem com esses belos insectos.
Quando o jardim é descoberto pela Polícia, Maya, uma das vítimas, ainda se encontra em choque e o seu relato está cheio de fragmentos de episódios arrepiantes, no limite da credibilidade.
O que esconderão as suas meias palavras?

 

 

OPINIÃO:

Um livro que se lê de forma compulsiva, que se quer esmiuçar até ao fim, que é o início. Bem construído e escrito, prende-nos pela forma como a história é narrada e se mostra em crescendo. No entanto, há pormenores inverosímeis e o final ficou aquém. Fiquei com uma triste sensação de “esperava mais”.

Acredito que o final da história não faz jus ao desenrolar da narrativa. É usual contarem-se histórias de raptos, de violações, de sociopatas ou assassinos em série descompensados e odiosos. O que não é normal é eles amarem e cuidarem das suas vítimas como borboletas. Como um jardim que se quer manter intacto, feliz, numa falsa aura de amor. A edificação desta estufa, desta história, onde um Jardineiro cultiva as suas obsessões sem olhar a meios e acreditando fazer o bem, está incrivelmente bem feita. E o intercalar do interrogatório  levado a cabo pelo FBI com o desdobrar da história da Maya está muitíssimo bem conseguido.

 

Mas,

Fiquei com uma sensação agridoce. Um amor-ódio por este livro que nem sei bem meter em palavras. Gostei e não gostei. Gostei da facilidade com que se lê. Da história em si, diferente, repulsiva, difícil de digerir a dada altura, mas não gostei do seu final banal, à queima-roupa e apressado.

 

Aviso de Spoiler

 

O facto de uma das colegas do apartamento já ter estado no Jardim, de a Maya o conhecer ainda antes de entrar e a sua inércia para sair de lá são absolutamente estúpidas. Se alguém já tinha saído, por que motivo não o tentou? Por que razão se deixa apaixonar pelo segundo filho do jardineiro, sem pressões para que denuncie o pai, quase cuidando das borboletas como uma cúmplice do sistema? Achei parvo, improvável e deixou-me irritada.

 

4*

 

 

A Grande Solidão

 

SINOPSE:

1974, Alasca. Indómito. Imprevisível. E para uma família em crise, a prova definitiva. Ernt Allbright regressa da Guerra do Vietname transformado num homem diferente e vulnerável. Incapaz de manter um emprego, toma uma decisão impulsiva: toda a família deverá encetar uma nova vida no selvagem Alasca, a última fronteira, onde viverão fora do sistema. Com apenas 13 anos, a filha Leni é apanhada na apaixonada e tumultuosa relação dos pais, mas tem esperança de que uma nova terra proporcione um futuro melhor à sua família. Está ansiosa por encontrar o seu lugar no mundo. A mãe, Cora, está disposta a tudo pelo homem que ama, mesmo que isso signifique segui-lo numa aventura no desconhecido. Inicialmente, o Alasca parece ser uma boa opção. Num recanto selvagem e remoto, encontram uma comunidade autónoma, constituída por homens fortes e mulheres ainda mais fortes. Os longos dias de verão e a generosidade dos habitantes locais compensam a inexperiência e os recursos cada vez mais limitados dos Allbright.

À medida que o inverno se aproxima e que a escuridão cai sobre o Alasca, o frágil estado mental de Ernt deteriora-se e a família começa a quebrar. Os perigos exteriores rapidamente se desvanecem quando comparados com as ameaças internas. Na sua pequena cabana, coberta de neve, Leni e a mãe aprendem uma verdade terrível: estão sozinhas. Na natureza, não há ninguém que as possa salvar, a não ser elas mesmas. Neste retrato inesquecível da fragilidade e da resiliência humana, Kristin Hannah revela o carácter indomável do moderno pioneiro americano e o espírito de um Alasca que se dissipa – um lugar de beleza e perigo incomparáveis. A Grande Solidão é uma história ousada e magnífica sobre o amor e a perda, a luta pela sobrevivência e a rudeza que existe tanto no homem como na natureza.

 

 

OPINIÃO:

Que livro. Que história magnífica sobre resiliência, perdão, auto-conhecimento e que reflexão fantástica sobre o que somos, criamos e podemos esperar do mundo. Que descrições sublimes. Que cenário mágico. Que ode às mais diversas formas de amor. Este é daqueles que nunca mais se esquecem. Adorei.

Há muito tempo que uma história não me tocava tanto. Deixei-me levar pela Leni, pela Cora, até pelo Ernt. É impossível não amar toda esta gente, não nos revermos em algumas das suas frustrações, não odiarmos, a dada altura, as escolhas feitas e as por fazer. Encontrei-me tanto nesta história que é apaixonante, sobretudo no que toca ao amor incomensurável entre mãe e filha. Ao apoio mútuo. Há sua inabalável ligação.

As descrições são sublimes. Senti-me a viver no Alasca durante o fim-de-semana em que devorei este livro. Quase obcecada. Quase sem respirar de tanto que precisava de saber. De ler. De sentir a vida e a dor destas personagens tão bem desenhadas, quanto reais.

Há muito tempo que uma história não me tocava tanto. Nunca tinha lido nada da Kristin Hannah mas tenho já o Rouxinol na minha lista.

 

5*, sem dúvida 5*

 

Ocupa o trono de 2020 até ver.

 

 

Os Imortalistas

 

SINOPSE:

Se lhe dissessem a data da sua morte, como construiria a sua vida?
1969, Lower East Side, em Nova Iorque corre a notícia sobre a chegada de uma mulher mística: uma adivinha que garante predizer a data da morte das pessoas.
Os irmãos Gold, quatro adolescentes na cúspide do autoconhecimento, escapam-se para ouvir a sua sorte.

 

 

OPINIÃO:

Os Imortalistas foi sendo lido, o que, por si só, não lhe é muito favorável. Compro livros e leio sinopses de forma compulsiva e, se me agarro a um e deixo outro em espera, é porque a coisa não está a prender. De um modo geral, Os Imortalistas é um bom livro, mas esperava mais considerando a premissa.

Está magistralmente escrito, embora lhe fizesse falta uma ou outra nota de rodapé que me obrigou a pesquisas no Google. Gosto de me encaixar nas histórias, de me situar e isso nem sempre foi fácil. De qualquer modo, é fácil viver em São Francisco, ou num apartamento em Manhattan pelas mãos da Chloe Benjamim que nos faz sentir em casa com o seu dedo narrativo.

Gostei das personagens, mas deixei-me arrebatar pelo Simon. A sua paixão e entusiasmo pela vida fizeram-me preferi-lo. E odiei a Varya, lamento a honestidade, mas é de uma inutilidade que me fez ter vontade de lhe dar chapadas. De qualquer modo, são todos interessantes e imortalistas, na medida em que perduram na história mesmo depois de executada a sentença. As alusões ao passado são constantes. As reflexões constroem grande parte da narrativa. Principalmente no que diz respeito à Klara.

Os Imortalistas fez-me, essencialmente e isso é o que de melhor teve, pensar no quanto somos nós quem definimos o nosso próprio fim. Se soubermos em que dia vamos morrer, vamos deixar que a vida flua naturalmente ou vamos condicionar as nossas escolhas, acelerando processos e retardando decisões, no sentido de que a vida culmine na precisa data em que nos foi vaticinada a morte?  O destino vive nas nossas mãos? Não passa de uma construção condicionada? Não encontrei respostas, naturalmente, mas pousei o livro várias vezes e pensei sobre isto.

E acredito que isso é o mais importante. Fazer-nos pensar nas ligações familiares que temos, no quanto podemos ser mais para os outros, ainda que os nossos medos e egoísmo, muitas vezes, nos impeçam ou nos toldem a visão. No quanto uma data pode definir anos. No quanto o amor perdura depois da morte.

 

Não consigo atribuir-lhe 5*, mas é um justo merecedor de 4*

 

4*


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